(N. do t.: Para os séculos, não foi seguida a
convenção de usar algarismos romanos..)
Na década de 50, em
certa época o mais famoso programa de televisão chamava-se a "Pergunta de
$64.000". Os participantes, que dizia-se serem cuidadosamente avaliados
previamente e eram experts, mas não profissionais, nos campos de sua escolha,
respondiam a perguntas de dificuldade crescente. Esse foi o primeiro dos
programas de jogos de TV de grande popularidade. Primeiro, havia a pergunta de
$64. Se fosse respondida corretamente, o participante poderia abandonar e
ficar com seu dinheiro, ou seguir em busca do dobro. As apostas iam de $64
para $128, $256, $512, $1000, $2.000, $4.000, $8.000, $16.000, $32.000 e
$64.000.
A maioria dos
participantes subia bastante na escala, e a tensão e a emoção cresciam de
semana a semana à medida que eles se encaminhavam para seus objetivos. Apenas
uma vez vi acontecer de um participante não acertar a primeira pergunta, de
$64.
Na ocasião, um garoto
de uns doze anos foi apresentado. Seu assunto era o xadrez. Ele foi, é claro,
anunciado como um prodígio do jogo. Como de hábito, o apresentador começou com
uma pergunta de $64 relativamente fácil. "Onde o xadrez foi inventado?",
perguntou.
"Na
China", o garoto respondeu.
"Errado!", disse o apresentador. "A resposta correta é Índia."
Assim, o garoto foi logo
retirado de cena. Nunca mais se viu ou ouviu a respeito do suposto menino
prodígio no mundo do xadrez.
Bem mais tarde, foi revelado que
muita coisa no programa era falsa. Alguns participantes eram simples atores, a
quem se dizia antecipadamente quais as respostas corretas. Muitas pessoas
famosas, inclusive principalmente Mark Van Doren, que apareceu num programa
similar chamado "21", tiveram suas reputações destruídas por causa desse
escândalo.
Contudo, há ainda mais um
escândalo não exposto a respeito desse programa em particular. O menino que
respodeu China à primeira pergunta deveria ser trazido de volta para tentar os
$128. A resposta que ele deu estava correta. O xadrez não foi inventado na
Índia. O xadrez foi inventado na China!!
Quando digo isso aos meus, em
outros aspectos, bem informados colegas enxadristas, eles me olham fixamente
com uma expressão que indica horror, consternação ou desgosto, ou uma mistura
de tudo isso. Finalmente, depois de uma pausa educada, normalmente dizem
"Desculpe-me. Você está errado. O xadrez foi inventado na Índia. Veja em
H.J.R. Murray."
É claro, o fato é que eu olhei
em H.J.R. Murray. Também procurei nas fontes que ele cita. Isso não é tão
fácil, na medida em que as páginas envelhecidas se esmigalhavam sob meus
dedos, mas também não é tão difícil. Todas as fontes citadas por Murray podem
ser achadas na Biblioteca Pública de Nova Iorque e locais similares.
Acredito que algum dia,
relativamente próximo, a declaração sem base de Murray de que o xadrez foi
inventado na Índia irá desmoronar como o clássico exemplo do cego conduzindo
outro cego. Há muitos outros exemplos desse fenômeno, mas esse em particular é
especialmente notável. Virtualmente todo ocidental de certo nível cultural,
seja ou não jogador de xadrez, parece saber ou pelo menos aceitar como um fato
cientificamente provado que o xadrez foi inventado na Índia. Toda fonte dessa
informação cita Murray. Porém, Murray, de fato, não cita fonte alguma.
Ainda mais incrivelmente, a
verdade sobre as origens do xadrez está há muito tempo encarando qualquer um
que tenha estudado a questão. Esse caso é quase tão extremo quanto o dos
astrônomos medievais. Na Idade Média, havia muitos astrônomos que estudavam o
céu a olho nu. Realizaram cálculos matemáticos precisos que ainda são
considerados válidos. Compreenderam em grande detalhe todos os ciclos e
epiciclos que os corpos celestes seguiam em seus movimentos em torno da Terra,
o centro do universo. À medida que seus cálculos se tornavam mais precisos,
eles tinham crescente dificuldade em sua atividade, mas sempre era possível,
postulando um novo epiciclo dentro de outro epiciclo, propor uma explicação
matematicamente sólida.
Um dia, Copérnico estava olhando
essa riqueza de dados coletados por outros, quando lhe ocorreu que tudo isso
poderia ser explicado mais facilmente dizendo que a Terra se movia em torno do
Sol, e não contrário.
Do mesmo modo, no caso em
questão a evidência sempre mostrou claramente que o xadrez foi inventado na
China e não chegou à Índia senão após cerca de um milênio, ou talvez bem mais.
Contudo, como quase todo autor e pesquisador aceitou de forma acrítica a
suposição de que o xadrez foi inventado na Índia no sexto ou sétimo século de
nossa era e depois foi para os outros países, foi-lhes necessário executar um
complicado processo de raciocínio para explicar seu aparecimento em outros
lugares em épocas anteriores.
Já foi demonstrado que o xadrez
apareceu na Índia em época não anterior ao século 6 d.c., e os próprios
estudiosos indianos parecem acreditar que a época real foi consideravelmente
mais recente que mesmo essa. É improvável que possa haver qualquer erro aí,
porque há uma profusão de material literário disponível em sânscrito, indo até
1500 a.c. Se o xadrez tivesse existido na história antiga da Índia, é quase
certo que isso teria sido mencionado em algum lugar. Ao mesmo tempo, pessoas
que são consideradas autoridades em seus campos sabem há muito que o
similaríssimo jogo de xadrez chinês, ou pelo menos um atepassado desse,
existiu na China pelo menos desde o segundo século a.c. Como eles conciliam
esses dois fatos?
Em essência, levantam duas
questões. Primeiro, dizem que os antigos manuscritos chineses estão
simplesmente errados. O jogo a que eles se referiam era talvez go, ou algum
outro jogo, mas certamente não poderia ser xadrez, porque, como todo mundo
sabe, o xadrez não foi inventado até o século 6 d.c.
A segunda é que o xadrez chinês
é um jogo totalmente diferente, sem relação com o xadrez ocidental. Enfatizam
que o xadrez chinês tem um rio, um canhão, um cavalo que não pula, e que as
peças no xadrez chinês têm inscrições em caracteres chineses e são colocadas
nos "pontos" em vez de nas casas. O fato de o xadrez chinês também ter uma
torre, um rei, um peão e um bispo, todos eles ocupando as mesmas posições
iniciais no tabuleiro e com os mesmos movimentos e os mesmos nomes que no
conhecido antecessor medieval do xadrez ocidental, é simplesmente ignorado. Em
alguns casos, é evidente que os chamados estudiosos nem sequer sabem as regras
do xadrez chinês.
Há duas referências ao xadrez na
literatura antiga chinesa. A primeira foi de uma coleção de poemas conhecida
como " Chu Chi ". O autor chamava-se Chii Yuan. Ele foi o mais famoso escritor
da dinastia Chou (1046 - 255 a.c.). Matou-se pulando num lago. A segunda é de
um famoso livro de filosofia conhecido como " Shuo Yuan " que citava Chu Chi.
É da dinastia Han (206 a.c.- 221 d.c.). Ambos são bem conhecidos de qualquer
estudante de literatura chinesa.
Uma referência mais recente ao
xadrez veio da dinastia Song (960 - 1279 d.c.). Havia uma famosa poetisa
chamada Li Ching Zhou. Ela escreveu um livro intutilado " Retrato da Batida no
Cavalo". Naquele tempo, as peças tinham os mesmos nomes que hoje.
Com o objetivo de, por exemplo,
descobrir a origem de uma língua, os linguistas realizam um processo conhecido
como reconstrução linguística. Primeiro, identificam os membros de uma família
de línguas observando características que não podem ser explicadas de nenhum
outro modo senão dizer que todas elas surgiram de uma origem comum. Depois
disso, apontam com precisão as mudanças sonoras uniformes que se pode
demonstrar terem ocorrido em uma vasta gama de ítens de vocabulário conforme
as línguas estavam surgindo. Finalmente, estão aptos a desenvolver, em
detalhe, uma proto-língua com uma descrição de como a língua original
gradualmente se separou nas muitas línguas daquela família existentes hoje.
Então, podem determinar quase o local exato do mundo onde a língua mãe se
originou e o período em que começou a se difundir e dividir.
Por exemplo, sabe-se que o
proto-indo-europeu se originou, ou pelo menos começou a se espalhar, 5000 anos
atrás em uma área ao norte dos mares Negro e Cáspio e ao sul dos Urais, muito
antes de a história escrita ter existido naquela região. O único sério
desacordo nesse ponto gira em torno de um raio de 200 milhas dessa área.
Teorias propagadas por grupos de interesses particulares, tais como as
afirmações nazistas de que que as línguas indo-européias foram inventadas por
uma raça de cabelos louros e olhos azuis na costa sul do mar Báltico, foi
demonstrado que são simplesmente falsas. Como, alguém pergunta, eles podem
estar tão certos disso, quando tudo isso ocorreu milhares de anos antes de
qualquer história escrita daquela área?
O modo como o lugar de origem é
determinado é por meio de palavras que são semelhantes em todas as línguas
indo-européias e cuja semelhança não pode ser explicada por "empréstimo". Por
exemplo, as palavras para "bétula", "cavalo", "carroça" e "biga" são comuns
para todas as línguas indo-européias da Europa à Índia. Entretanto, cavalos,
carroças, e bigas não existem naturalmente nem na Europa nem na Índia, mas
existem em abundância nas áreas ao norte dos mares Negro e Cáspio, como também
as bétulas, então essa é uma das muitas evidências que apontam para aquela
área. (A especial relevância da não existência de cavalos e bigas naturalmente
na Índia se tornará aparente em breve).
O próximo passo lógico é aplicar
esse processo ao jogo de xadrez. Felizmente, assim como há muitos tipos de
línguas indo-européias, também há muitos tipos de xadrez. Existe xadrez
ocidental, xadrez chinês, xadrez japonês ("shogi"), xadrez coreano, xadrez
burmês, xadrez cambojano, xadrez tailandês, xadrez malaio, xadrez indonésio,
xadrez turco e possivelmente até xadrez etíope.
Seguindo o processo linguístico
mencionado acima, o primeiro passo é determinar se, de fato, esses são todos
ramos do mesmo jogo. Isso realmente não é difícil. Todos os jogos acima têm o
objetivo de dar xeque-mate ao rei. Todos eles têm um rei no centro, uma torre
no canto, um cavalo próximo a ela e peões em frente e os movimentos dessas
peças é idêntico ou quase idêntico ao do xadrez ocidental. Nenhum deles, além
do xadrez ocidental, tem uma dama, mas nós sabemos que a dama foi primeiro
inventada na Itália no século 15, muito depois que os outros ramos da árvore
tinham se dividido. Em relação ao bispo, apenas o xadrez japonês tem um bispo
em estilo ocidental, mas os japoneses acreditam que essa coincidência é
relativamente moderna. Outra formas de xadrez têm um elefante, como as versões
árabe e persa do jogo. Entretanto, sabemos que o bispo moderno é uma inovação
puramente ocidental que foi derivada do elefante, muito provavelmente no
século 15.
No xadrez japonês, cada lado tem
apenas um bispo, e ele começa num estranho lugar bem em frente ao cavalo do
lado esquerdo. Essas diferenças indicam que o bispo japonês foi desenvolvido
independentemente do ocidental e as semelhanças entre eles são puro acaso, ou
que os ocidentais levaram o bispo ao Japão (ou os Japanese trouxeram seu bispo
para o ocidente) em tempos relativamente modernos. Os elefantes do xadrez
chinês claramente se tornaram os pratas do xadrez japonês, enquanto as bigas
(torres) do xadrez chinês foram reduzidas às lanças do xadrez japonês.
Há muitas outras semelhanças
entre todos esses jogos, mas já sabemos bastante para estarmos absolutamente
certos de que eles têm uma origem comum, então agora precisamos determinar
quando e onde essa origem se deu.
Primeiro, vamos nos livrar da
afirmação de que o xadrez foi inventado na Índia. Sabemos que há escritos
chineses sobre xadrez datados do século 2 a.c. A maioria dos autores,
incluindo H.J.R. Murray, de fato não sabe disso, enquanto outros escritores de
história do xadrez, como meu bom amigo Fred Wilson, apressadamente omitem isso
e passam a um assunto que conhecem bem melhor, como a vitória de Bobby Fischer
sobre Boris Spassky em 1972. Um escritor, que ao menos merece crédito por
enfocar a questão, é Harry Golombek, que, em seu "Xadrez, uma História",
afirma:
"Vi um poema datado do século 2
a.c. no qual, segundo o tradutor, há duas referências ao jogo de xadrez. Se o
jogo era de fato jogado na época, isso iria causar uma completa reviravolta em
todas as teorias atuais; mas há duas explicações possíveis para as
referências, cada uma das quais deixaria as modernas teorias intactas. Eles
poderiam ser relativas ao jogo de 'wei-chi', ou 'go', que sabe-se ser bem mais
velho que o xadrez (ou que qualquer jogo de tabuleiro, o gamão, por exemplo).
Ou elas poderiam se referir ao jogo de xadrez chinês com um rio, que de fato
não é em absoluto xadrez como o conhecemos." Golombek, Xadrez, uma História,
G. P. Putnam's Sons, New York, 1976, p. 10.
Algumas páginas depois torna-se
claro que, por "jogo de xadrez chinês com um rio", Golombek refere-se ao
moderno xadrez chinês, que tem um rio no meio. Ele passa a descrever as regras
aproximadas desse jogo:
"O Jogo do Rio tem semelhanças
com o chaturanga e o xadrez que são notáveis. Mas as diferenças também o são -
tanto que ainda não está provado se é uma variante ou um derivado do
chaturanga, ou se origina-se de algum jogo mais antigo (talvez o que é
descrito em 'O Palácio Dourado') e foi então misturado com (ou fortemente
influenciado pelo) chaturanga, à medida que seguiu para a China desde a
Índia."
"Chaturanga" é o suposto
ancestral do xadrez moderno que era jogado na Índia. Como tantos outros
autores, Golombek está cego para a possibilidade de que o xadrez não se
originou na Índia. Na página seguinte, afirma:
"Go, um jogo muito mais antigo
que chaturanga, não tem qualquer semelhança com o xadrez. Conhecido como
wei-chi, há muitas referências a ele na literatura chinesa antiga. Vi
traduções destas que, erroneamente em minha opinião, os apresentam como
xadrez. Um exemplo disso é o 'Palácio Dourado', um poema anônimo escrito no
século 1 a.c." Ibid, p. 23.
Notavelmente, quando diz que o
"jogo do rio" pode ter descendido de algum ancestral antigo, como descrito n'O
Palácio Dourado, ele omite a clara possibilidade de que o antigo jogo,
qualquer que fosse, pode ter sido o ancestral comum tanto do chaturanga como
do xadrez chinês. Um linguista profissional teria notado essa possibilidade
instantaneamente. Golombek, contudo, é apenas um mero jogador de xadrez.
Há muitos outros exemplos disso,
mas deixemo-los de lado e passemos diretamente à fonte: H.J.R. Murray. O
trabalho de Murray, "Uma História do Xadrez", foi publicado em 1913. Seu outro
volume, "Uma Breve História do Xadrez", foi primeiramente publicado em 1963,
mas havia sido escrito em 1917 e foi encontrado em seus escritos depois de sua
morte. Logo, seu trabalho mais recente acerca da história do xadrez foi
escrito em 1917.
Em quase qualquer outro campo de
pesquisa acadêmica, um trabalho de tal idade está obsoleto. Porém, muito
surpreendentemente, pesquisadores sérios aparentemente não se interessaram
muito pela história do xadrez e não se importaram ou sequer pensaram em voltar
e reexaminar a base subjacente à conclussão de Murray. Também
surpreendentemente, no trabalho de Murray, que em outros aspectos é
aparentemente bem documentado, ele parece ter apenas uma fonte concreta para
sua declaração de que o xadrez foi inventado na Índia. A fonte é H.J.
Raverty.
"Raverty", exclamei quando vi.
Conheço Raverty bem, porque ele é a maior autoridade em outro assunto
totalmente diferente, no qual por acaso tenho um profundo interesse. É a
língua pashtu, que é falada no Afeganistão e na província noroeste da
fronteira do Paquistão. Tenho o dicionário completo pashtu-inglês em casa, e o
estudo frequentemente. É um execelente trabalho, obviamente compilado depois
de anos de esforço prodigioso. Entretanto, é claro que Raverty era nada mais
que um leigo, não um linguista treinado. Por exemplo, Raverty não entendia
realmente a diferença entre consoantes retroflex and palatais. Essa diferença
por acaso é crítica na língua pashtu e nenhum linguista treinado cometeria
esse erro.
Raverty era um oficial inglês do
século 19. Sua principal qualificação foi ter servido nas guerras perpétuas
contra o Afeganistão durante aquele período. Aparentemente acreditando no
adágio "conheça seu inimigo", Raverty estudou a língua, a cultura e a
literatura das pessoas que ele estava combatendo. Murray, por outro lado,
indubitavelmente era incapaz de ler uma só palavra em hindi, urdu ou pashtu,
muito menos sânscrito, então teve que confiar naqueles que eram, como
Raverty.
Em 1902, nos últimos anos de sua
vida, Raverty publicou um artigo no Jornal da Sociedade Real Asiática de
Bengala. Intitulava-se a "História do Xadrez e do Gamão". Raverty, H.J.,
"História do Xadrez e do Gamão", Jornal da Sociedade Real Asiática de Bengala,
Vol. 71, Parte I, p. 47, Calcutá, 1902 .
Esse artigo pela primeira vez
contou a história que agora é conhecida por todo jogador de xadrez. A
história, em suma, é a seguinte: Havia uma vez um sábio chamado Shashi em
Sind, no reino do rei Rai Bhalit, no noroeste da Índia. Uma noite Shashi
inventou um maravilhoso jogo novo. Na manhã seguinte, levou-o ao rei, que
ficou encantado e perguntou qual a recompensa que ele desejava. O rei disse
que qualquer pedido cabível seria concedido. Shashi disse que apenas queria
que um grão de trigo fosse colocado na primeira casa do tabuleiro de xadrez,
dois na segunda, quatro na terceira, oito na quarta, e assim por diante, até
que todas as 64 casas tivessem sido preenchidas. O rei prontamente concordou
com seu pedido.
Todos nós sabemos o fim dessa
história. De qualquer modo, de acordo com Raverty, Shashi tinha um filho
chamdo Shah, e daí veio o nome "shak" ou xadrez. No mesmo artigo, Raverty
também relata como o gamão supostamente foi inventado, segundo ele, apenas um
pouco antes do xadrez. Está agora provado que pelo menos essa parte da
história não tem o menor sentido.
Apesar de Murray considerar a
história sobre a invenção do xadrez uma lenda, sem dar os devidos créditos a
Raverty (é Davidson que esclarece que Raverty foi a fonte original para a
história), ele a mantém mesmo assim. Diz que o xadrez foi inventado em uma
única noite por um filósofo que vivia no noroeste da Índia. No tempo de
Murray, antes da divisão da Índia em 1947, que a quebrou em duas partes,
noroeste da Índia significava o que agora é a província noroeste da fronteira
do Paquistão e, possivelmente, partes do Afeganistão.
Essa região geográfica era a
área de especialidade de Raverty. Sind, entretanto, agora é a província mais
ao sudeste do Paquistão, e inclui Karachi. Talvez Murray não soubesse
exatamente onde era Sind. De qualquer modo, todo o atual Paquistão, incluindo
Sind, poderia possivelmente ter sido então chamado noroeste da Índia.
Acontece que o Paquistão é um
país sobre o qual eu sei alguma coisa. Escrevi um dicionário de uma língua
falada lá e viajei e vivi bastante naquela região, especialmente na província
noroeste da fronteira do Paquistão e também no Afeganistão. As pessoas de lá
são basicamente habitantes do deserto. São grandes comerciantes e mercadores.
Suas caravanas podem facilmente penetrar desde a Arábia até a China. Porém,
dizer que essas pessoas, cuja vasta maioria ainda hoje não sabe ler nem
escrever, inventaram um jogo como o xadrez, é ridículo, e tenho certeza de que
meus vários amigos no Paquistão vão concordar comigo.
Os próprios indianos ficam
perplexos com a afirmação de que o xadrez foi inventado por eles. Isso é o que
foi dito no Trimestral Histórico Indiano, um jornal acadêmico sério:
Chakravarti, Chintaharan, "Trabalhos em Sânscrito sobre o Jogo de Xadrez",
Trimestral Histórico Indiano, Calcutá, Junho, 1938, Vol. 14, No. 2, Parte I,
p. 275.
"Apesar de geralmente os
estudiosos suporem ser o jogo de xadrez de origem indiana e dizer-se que se
encontram referências ao mesmo em vários trabalhos indianos de época muito
antiga, trabalhos em sânscrito a respeito do xadrez e descrevendo sua
complexidade são comparativamente raros. De fato, não se conhece nenhum
trabalho indiano antigo a respeito e até recentemente a obra acadêmica tinha
pouquíssimas descrições do xadrez."
O jornal também cita certas
declarações de que há referência ao xadrez em vários escritos de autores
indianos antigos. Mas deixa claro que isso era um truque comum naqueles
tempos. Quando alguém queria ganhar crédito por suas idéias, dizia que tal e
tal pessoa famosa, morta tempos antes, disse ou escreveu aquilo. O jornal
então passa a listar uma quantidade de autores famosos que supostamente
escreveram sobre xadrez, e nega todas essas evidências. Finalmente, não
consegue encontrar sequer uma fonte na literatura indiana concernente a xadrez
datada de antes de Sulipani, no século 15 d.c. (mais de 900 anos depois que
Murray diz que o xadrez foi inventado lá)!! Em suma, toda e qualquer fonte
citada por Murray, Davidson, Forbes, Golombek, Eales e outros, que
supostamente estabelece que na Índia se escreveu sobre xadrez durante o
primeiro milênio depois de Cristo, está desacreditada. A conclusão é: "Isso é
bastante curioso e aparentemente levanta uma dúvida com relação à genuinidade
do trabalho."
É improvável que possa haver
qualquer engano quanto a esse ponto. H. J. R. Murray cita dois trabalhos do
século sete e mais dois do século nove, que ele diz conterem referências ao
xadrez. Murray diz que referências ao xadrez estão contidas no Harshacharita
de Bana e no Vasavadatta de Subhandu. Essas citações são seguidas sem critério
por Golombek, Eales e outros. Mas essas são as obras clássicas famosas na
literatura indiana. Se elas realmente contivessem referências ao xadrez, então
qualquer garoto de escola indiano saberia disso. Murray também diz que o
xadrez é discutido em pré-persa (pahlavi) no Karnamak e no "Chatranj Namak". O
Karnamak é uma obra perdida que Murray não teria possibilidade de ler e que
não é certo sequer ter existido. O "Chatranj Namak" parece ser uma obra
puramente inventada por Murray que ninguém mais viu ou sobre a qual sequer
ouviu. Obras mais recentes citadas por Murray, Haravijaya de Ratnakara e
Kavyalankara de Rudrata, não contêm, de acordo com os estudiosos, qualquer
referência ao xadrez. Murray sustenta que o famoso viajante Al-Beruni observou
xadrez sendo jogado na Índia no ano 1030. Apesar disso, os eruditos árabes que
estudaram as obras de Al-Beruni no original dizem que ali não há nenhuma
citação sobre o xadrez.
"Chaturanga" era a palavra
indiana para o familiar tabuleiro de damas de 8x8, sobre o qual muitos jogos
eram e ainda são jogados. O uso do termo "chaturanga" na liteartura indiana
não prova que o jogo que conhecemos agora como xadrez era jogado nesse
tabuleiro.
Parece que Murray, um simples
professor primário sem nenhuma credencial erudita, nunca leu essas obras, mas
em vez disso confiou em material publicado na Alemanha no fim do século
dezenove. (Murray parece nunca citar sua verdadeira fonte). Ou seja, a
afirmação de que na literatura clássica indiana há referência ao xadrez tem
base tão sólida quanto dizer que o xadrez era jogado pelos faraós do Egito e
que Alexandre, o Grande, era um forte jogador de xadrez.
O fato de o xadrez não ser muito
popular na Índia ainda hoje também é significativo. Os hindus são grandes
filósofos, mas não se interessam muito por jogos. A Índia só se filiou à
F.I.D.E. (a Federação Internacional de Xadrez) recentemente e não mandava
times às competições internacionais até há poucos anos. O único grande jogador
de xadrez indiano da História, Sultan Khan, não veio de onde hoje é a Índia em
absoluto. Ele era um muçulmano de perto de Lahore, Paquistão, e sua fama de
grandeza deriva em parte do fato de ter vindo de um país que era considerado
não-jogador de xadrez. Há outras fontes para a afirmação de que o xadrez foi
inventado na Índia, mas são todas baseadas em Murray. Antes de Murray, as
maiores autoridades frisavam que a Pérsia era o local mais provável para a
origem do xadrez. Mais ainda, por várias razões históricas, o próprio Murray
indica que para que sua tese esteja correta, o xadrez não pode ter sido
inventado antes da dominação huri do norte da Índia em torno de 500 d.c.
Murray, H.J.R., "Uma Breve História do Xadrez" com B. Goulding-Brown e H.
Golombek, Oxford at the Clarendon Press, p. 1 (1963). Depois de citar uma
fonte datada de 600 d.c., Davidson diz "Essa é a mais antiga referência ao
xadrez em toda a literatura."
Infelizmente, o problema de
Murray parece ter sido que, não só ele não lia hindi or urdu, como também não
sabia chinês. Raverty, em seu artigo, diz que Shuli, um dos primeiros grandes
jogadores e discípulo do inventor, Shashi, morreu em 946. Também menciona
várias figuras históricas desconhecidas, como o rei Rai Bhalit, que viveu no
tempo de Shashi, também escrito Sassi, Sissa, Sahsih ou mesmo Shashi. (A
pronúncia "Shashi" é a mais acurada para um falante anglófono, porque os dois
sons /sh/ são ambos retroflex). Raverty também diz que Shashi era filho de
Dahir, um soberano de Sind que morreu em batalha no ano de 712 d.c. durante a
dinastia Akasirah. Isso indicaria uma origem para o xadrez no século oito.
As outras fontes são semelhantes
a Murray. Por examplo, o Professor D. W. Fiske, que diz:
"O xadrez é um antigo jogo
primeiramente mencionado em documentos datados dos primeiros anos do século 7
d.c. e associado ao noroeste da Índia e à Persia. Antes do século sete de
nossa era, a existência do xadrez em qualquer lugar não é demonstrável por
qualquer evidência contemporânea." Fiske, D.W., The Nation, 1900.
Então, aparece Davidson, outro
conhecido escritor de história do xadrez. Ele diz:
"A trilha do xadrez conduz até
cerca de 500 d.c. Então esbarramos em uma barreira atrás da qual a pequisa
histórica não penetrou. Tudo o que sabemos é que, durante o século seis, os
cidadãos jogavam chaturanga, um jogo essencialmente parecido com o xadrez
moderno." Davidson, H.A., Uma Breve História do Xadrez, Greenberg, New York,
1949, p. 22.
Das fontes acima, podemos
razoavelmente concluir que o xadrez apareceu na Índia não antes do século 6
d.c., e talvez bem depois. Mas também sabemos que se escreveu sobre o xadrez
chinês muito antes disso.
Agora, precisamos lidar com a
declaração, já que ela foi feita, de que o xadrez chinês não tem real relação
com o xadrez ocidental. Quanto a isso, devemos usar a evidência bem
estabelecida sobre as origens do moderno xadrez ocidental. Sabemos dos
escritos de Lucena (do famoso "mate de Lucena") que a forma moderna do xadrez
foi inventada ou pelo menos codificada na Itália durante o período de 1475 a
1497 d.c. e espalhou-se rapidamente por toda a Europa. Esse jogo trouxe três
características que o xadrez medieval não tinha: a dama moderna, o bispo
moderno e a captura de peão en passant. Roque em um lance e promoção
automática de peão ainda não haviam sido codificados. Todavia, essas mudanças
foram suficientes para fazer com que Ruy Lopez publicasse em 1561 suas famosas
análises de aberturas. A partida mais antiga na "Enciclopédia Oxford de
Partidas de Xadrez" é datada de 1490, só que não é jogada legalmente de acordo
com as regras do xadrez moderno. Levy, David e O'Connell, Kevin, The Oxford
Encyclopedia of Chess Games, Oxford University Press, 1983.
O jogo na Europa anterior a 1475
era ainda substancialmente idêntico àquele jogado pelos persas, indianos e
árabes no século sete. De fato, os termos xadrez persa, xadrez indiano, xadrez
árabe e xadrez medieval são aqui usados com sentidos mais ou menos idênticos,
já que não parece haver diferenças marcantes conhecidas entre eles. O xadrez a
quatro mãos, que alguns, começando com Forbes, acreditam que fosse o jogo
original (Forbes, Duncan, The History of Chess, W.H. Allen 5 Co., London,
1860), está provado ser somente uma variante malsucedida.
Em outras palavras, o jogo, ou
pelo menos o mais popular dos referidos, permaneceu o mesmo por cerca de 800
anos. Então, subitamente, três grandes mudanças foram feitas mais ou menos
simultaneamente e o velho jogo foi quase imediatamente esquecido. Realmente,
durante esses 800 anos, houve constantes experimentos com diferentes tipos de
peças, como os griffins, os unicórnios e outros animais estranhos, como ainda
ocorre hoje. Sem dúvida, o bispo moderno e a dama moderna foram primeiro
pensados muito antes de 1497. Mas não foi senão aproximadamente naquele ano
que todos esses elementos foram combinados no mesmo jogo ao mesmo tempo. O
processo parece ter sido essencialmente darwiniano, com inumeráveias mutações,
mas apenas as raras superiores sobrevivendo ao final.
O jogo original persa ou indiano
tinha exatamente as mesmas peças com o mesmo movimento que no jogo medieval,
mas as peças tinham nomes ligeiramente diferentes. A peça no canto não era uma
torre, mas uma biga. (Lembre-se do que foi dito sobre as línguas
indo-européias). Depois, veio o cavalo. (O cavaleiro é um termo puramente
europeu). Depois disso, veio o elefante. (Ainda é um elefante em russo e em
vários outros idiomas atuais. Também em espanhol é "alfil", que vem do árabe
"al-fil", que significa "o elefante". "Al" quer dizer "o" e "fil" significa
"elefante". Foram, é claro, os árabes que levaram o xadrez para a Espanha). O
elefante pulava duas casas diagonalmente, nem mais nem menos. Depois, veio o
chanceler ou ministro, que se movia apenas uma casa diagonalmente. Finalmente,
no centro, apareceu o rei, que se movia como o nosso rei. O nome persa para o
jogo era, e ainda é, shatranj. O tabuleiro era formado de 8x8 casas sem
cor.
Agora, vamos examinar o xadrez
chinês. O nome em mandarim para xadrez chinês se pronuncia shaingchi. Às vezes
se escreve "hsiang-chi", e, usando o sistema pinyin de ortografia da República
Popular da China, escreve-se "xiangqi". Mas nesse sistema, "X" é pronunciado
"SH" (retroflex) e "Q" pronuncia-se "CH" (retroflex). O nome chinês,
shiangchi, soa muto similar ao nome persa, shatranj. De fato, elas são tão
similares quanto uma palavra persa e uma chinesa podem soar. Shiangchi também
soa mais ou menos como "shakmat", a palavra russa para xadrez, como "shogi",
que é o xadrez japonês, e como "chaturanga", o nome indiano. Qualquer
linguista vai concordar que isso é uma forte, se não definitiva, evidência
apontando para a conclusão de que todas essas são versões do mesmo jogo.
Agora, vamos dar uma olhada nas
peças, da esquerda para o centro. A peça do canto no xadrez chinês chama-se
biga. (Os jogadores chineses modernos às vezes a chamam de carro). O nome
também é biga no xadrez persa. O movimento também é o mesmo. Move-se como a
nossa torre. A peça a seguir é o cavalo ("asp" em persa, que eu conheço um
pouquinho). Também é um cavalo em xadrez chinês. O movimento é o mesmo em
ambos os jogos, exceto que o cavalo não pula no xadrez chinês. (Os chineses
dizem que essa restrição foi uma inovação mais moderna, para reduzir a força
do cavalo). A terceira peça é o elefante. Outra vez, o nome é o mesmo em persa
e chinês, como também em árabe, russo e muitas outras línguas. O movimento
também é o mesmo. Ambos se movem exatamente duas casas diagonalmente. No
xadrez chinês, o elefante não pode pular sobre outra peça. Alguns dizem que
ele podia pular no xadrez persa e indiano, mas isso não está claro. Em
seguida, há o conselheiro, ministro ou chanceler. De novo, ambos têm
essencialmente o mesmo nome tanto no xadrez chinês como no persa. O movimento
também é o mesmo: uma casa diagonalmente. Contudo, aqui há uma diferença
significativa. O xadrez chinês tem dois conselheiros ou guardas e, por essa
razão, há nove peças enfileiradas, e não oito como no xadrez persa e no
ocidental. Também, no xadrez chinês, os conselheiros e o rei não podem sair de
uma área central conhecida como os "nove palácios". Finalmente, no centro de
ambos os jogos está o rei.
Em vista de tudo isso, como é
possível, então, que qualquer pessoa sensata e informada possa dizer que esses
dois jogos não têm relação? A resposta é que os detratores valem-se
princimente da existência do canhão e do rio. O canhão é uma peça única.
Move-se como uma torre, mas só captura pulando a peça intermediária e
capturando a peça atrás dessa. Não só essa peça não existe no xadrez
ocidental, mas ela não existe no xadrez japonês ou em qualquer outra versão do
jogo, exceto no xadrez coreano. A explicação para isso é simples. O canhão é
uma inovação que os chineses dizem ter sido inventada não antes do século 10
d.c., depois que os outros ramos do jogo tinham se separado.
Quanto ao rio, tem sido colocada
ênfase excessiva sobre ele. O rio é simplesmente uma fronteira artificial
entre as forças opostas, sem nenhum significado real independente exceto
prover um ponto de referência e realizar essencialmente a mesma função que ter
as casas coloridas de branco e preto no xadrez ocidental. As bigas, cavalos e
canhões podem mover-se para trás e para a frente ao longo do rio livremente.
Além de marcar o centro do tabuleiro, apenas duas regras têm qualquer relação
com o rio. A primeira é que os elefantes não podem cruzar o rio, logo são
peças puramente defensivas. A segunda é que os peões adquirem o poder de se
mover de lado ao cruzar o rio. A promoção de peão, como no xadrez ocidental,
não existe no xadrez chinês. Sem essa regra, os peões no xadrez chinês
estariam liquidados assim que atingissem a última fileira. No xadrez chinês,
eles passam então a poder se mover para os lados e frequentemente cumprem um
papel fundamental no mate ao rei inimigo no final de jogo. Finalmente, está
claro que a criação do rio é apenas outra inovação relativamente recente. Até
o similaríssimo jogo de xadrez coreano não tem rio, porque não precisa de um,
apesar de o xadrez coreano ser também jogado num tabuleiro 9x10. A razão óbvia
para isso é que, no xadrez coreano, o elefante tem um tipo diferente de
movimento, e não está restrito a apenas um lado do tabuleiro, enquanto os
peões podem se mover para os lados imediatamente e não precisam primeiro
atingir o território inimigo.
O fato é que o xadrez chinês,
como o xadrez ocidental, evoluiu gradualmente e as regras mudaram ao longo de
um vasto período de tempo. Os chineses estudaram isso com mais zelo que seus
colegas ocidentais e sabem muito mais sobre a história do seu jogo.
Encontrei-me com o sr. Liu Guo Bin, Diretor e Árbitro Chefe da Federação
Chinesa de Xadrez Chinês na rua Tiyuguan 9, Pequim, China, em abril de 1985, e
ele vem a ser uma das autoridades na matéria. Diz ele que as regras modernas
do xadrez chinês foram completadas na dinastia Song, que existiu em torno de
1000 d.c. Há controvérsia sobre esse ponto, mas é fato que os chineses
estudaram cuidadosamente a história do seu jogo, ao passo que nós obviamente
negligenciamos a nossa.
A escrita chinesa não mudou
muito em 2000 anos, apesar de a linguagem falada ter naturalmente estado em
constante mudança. As mesmas letras eram usadas para escrever o nome do xadrez
chinês naquela época e agora. Quando um ocidental como Golombek assevera que
os chineses não sabem seu próprio idioma e confundiram xadrez com go nas suas
histórias antigas, ele está apenas mostrando uma opinião apressada indigna de
consideração. Ao mesmo tempo, os próprios chineses têm que dividir parte dessa
culpa, porque eles não protestaram mais vigorosamente, exceto em publicações
escritas em sua própria língua.
Há dois grandes jogos chineses:
"shiang-chi" e "wei-chi". Wei-chi é o jogo conhecido no Japão como go. Está
bem estabelecido que o wei-chi é realmente um jogo antigo, datado talvez de
4000 anos, mas originalmente jogado num tabuleiro menor. (É interessante, os
detratores dessa teoria asseguram que os antigos escritores estavam se
referindo ao xadrez, e não ao go). O símbolo para "wei" é uma letra chinesa
cujo significado é similar ao da palavra pronunciada "go" em japonês (que
também usa as letras chinesas). Isso explica a diferença entre os dois
nomes.
O outro jogo, shiang-chi, usa a
letra chinesa que se pronuncia "shiang", que significa, ou significou,
"elefante". A letra chinesa para "chi", que pode ser entendida como
significando "jogo", é a mesma em ambos os jogos. Então, "shiang-chi" quer
dizer "jogo do elefante". O xadrez japonês chama-se shogi no Japão. Como foi
dito antes, isso se pronuncia semelhantemente a shiang-chi e até a shatranj.
Só que em japonês são usados outros caracteres chineses. Como a palavra para
"elefante" é pronunciada muito diferentemente em japonês, os japoneses, em sua
atitude típica, procuraram uma palavra cuja pronúncia fosse a mais próxima
possível de "shiang". Foi proposto "sho", que significa "general". O nome
"jogo do general" é uma boa descrição para o jogo de shogi, então ficou. (Os
japoneses chamam nosso jogo ocidental de "shogi internacional" e o xadrez
chinês de "shogi chinês").
Há, porém, duas diferenças
significantes entre o xadrez chinês e o persa ou o ocidental que não mencionei
até agora. A primeira é que no xadrez chinês (e no coreano) as peças são
colocadas nas interseções ou "pontos", enquanto no xadrez ocidental (e no
japonês ) elas são colocadas nas casas.
Sabemos o motivo disso. É que no
bem mais antigo jogo go, as pedras eram colocadas nos pontos, então, quando um
novo jogo foi inventado, a convenção foi seguida. Apesar disso, não temos
certeza se, no jogo de xadrez original, as peças eram posicionadas nos pontos
ou nas casas. Mas isso não nega a origem comum desses dois jogos. Ao
contrário, o fato explica a razão de outra diferença. O moderno tabuleiro de
xadrez chinês tem 9x10 pontos. Isso vem a ser o mesmo que um tabuleiro de 8x9
casas, incluindo o rio no centro. Se o rio é eliminado (e o rio não pode mesmo
ser chamado de casas), então temos realmente 8x8 casas num tabuleiro da xadrez
chinês, exatamente o mesmo que no xadrez ocidental. Novamente, isso aponta
para uma origem comum, e nós simplesmente não podemos ter certeza se a
complexa versão chinesa do xadrez foi a primeira e então foi reduzida à
simplificada versão persa, ou vice-versa. (Diga-se de passagem, o xadrez
chinês é definitivamente mais complexo que o ocidental, ainda que essa
afirmação possa ferir o orgulho dos ocidentais. Há mais tipos diferentes de
peças no tabuleiro no xadrez chinês, mais jogadas legais e/ou razoáveis
possíveis nas posições típicas, e o jogo dura mais, às vezes centenas de
lances, no xadrez chinês. O xadrez japonês é, por sua vez, mais complicado que
ambos.)
Há ainda outra pista tentadora a
ser retirada da observação de que o xadrez chinês é jogado nos pontos devido a
uma convenção do go. O go tem a peculiar propriedade de poder ser jogado num
tabuleiro de qualquer tamanho, exceto que o número de pontos deve ser
preferencialmente ímpar (para reduzir a possibilidade de empate). Ao longo da
história, o go foi jogado em tabuleiros de muitos tamanhos diferentes. Hoje,
três tamanhos são de uso comum: 19x19 (o padrão), 13x13 e 9x9. O tamanho 9x9
agora é usado principalmente para ensinar crianças e principiantes, mas mesmo
assim é um jogo complexo e desafiador. Acontece que um tabuleiro de go de 9x9
também equivale a um tabuleiro de xadrez de 8x8. Isso é especilamente
significativo, porque os tabuleiros de xadrez originais na Índia e na Pérsia
não tinham casas brancas e pretas. (Essa, também, é uma inovação moderna).
Murray diz que nos áridos tabuleiros de xadrez originais de 8x8, havia
"marcas" misteriosas. Seria possível que essas "marcas" fossem os pontos
fracos no go? (Infelizmente, há outra possibilidade perturbadora. A arte persa
antiga, como a mostrada por Golombek (pp. 31, 36, 53), mostra os nomes das
peças escritos em árabe no tabuleiro, em vez de peças "em pé". Além dessas,
não fui capaz de localizar nenhuma marca. É quase inacreditável, mas talvez
Murray não entendesse o que essas "marcas" árabes fossem.)
Ou seja, é fácil postular que
quando o xadrez foi da China para a Índia, era jogado num tabuleiro de go de
9x9. Quando os indianos (ou persas ou árabes, quais tenham vindo primeiro),
que não sabiam nada de go, viram aquilo, eles simples e naturalmente tiraram
as peças dos pontos e puseram nas casas. Assim, um tabuleiro de go de 9x9
tornou-se um tabuleiro de xadrez de 8x8. Contudo, havia ali uma peça a mais,
então os indianos simplesmente eliminaram um dos chanceleres. Também
acrescentaram três peões, para preencher o espaço vazio em frente. (O xadrez
chinês agora só tem cinco peões, mas pode ter tido mais em versões mais
antigas do jogo). Dessa forma, é possível que eles tenham convertido o xadrez
chinês em xadrez indiano de um só golpe.
A outra diferença restante é que
o xadrez ocidental usa peças "em pé", enquanto a maioria das versões orientais
do xadrez, inclusive o xadrez chinês, o coreano e o japonês, usam peças chatas
com caracteres chineses escritos sobre elas. (Há pequenas diferenças entre
esses três tipos de peças: as chinesas são circulares, as coreanas são
octogonais, e as japonesas, pentagonais). Portanto, o cavalo chinês, o cavalo
coreano ou o cavalo japonês simplesmente têm o caractere chinês para cavalo
escrito sobre a peça, enquanto o jogo ocidental tem a figura verdadeira de um
cavalo entalhada.
Qual veio primeiro? Novamente,
não temos como saber a resposta. Entretanto, deve-se notar que a antiga arte
persa e árabe relativa ao xadrez não mostra fisicamente as peças no tabuleiro,
mas em vez disso tem os nomes das peças escritos em árabe sobre o tabuleiro,
exatamente como as peças chinesas são agora escritas em chinês. A primeira
evidência de peças físicas reais não aparece até que o jogo chegou à Europa
cristã. Talvez isso explique o fato de os arqueólogos não terem tido muito
sucesso em desenterrar jogos de xadrez realmente antigos, considerando
saber-se quão popular o xadrez foi. Possivelmente, os nomes das peças eram
escritos em simples papel, e os próprios tabuleiros de xadrez fossem
desenhados na terra.
Segundo, alguns historiadores
chineses acreditam que as peças originais no xadrez chinês eram peças "em pé"
ao estilo ocidental. Eles dizem que foram desenterrados túmulos antigos da
dinastia Song que contêm peças "em pé". A teoria é que, como a China sempre
foi um país pobre, as pessoas não podiam comprar peças entalhadas
individualmente, então acabaram aceitando usar simples discos com os
caracteres chineses manuscritos sobre eles. Além disso, assim as peças podiam
ser usadas para outros jogos. Por exemplo, uma variedade que ainda é jogada no
parque em Chinatown em São Francisco é um jogo de apostas em que os jogadores
começam com a face das peças voltada para baixo, para ocultar o tipo de peça
do oponente. Gradualmente, à medida que o jogo avança, as peças são desviradas
e seu caractere, revelado. Similarmente, os japoneses puseram essa
característica a bom uso, porque o lado de baixo da maioria das peças deles
contém outra peça para a qual a peça de cima pode ser promovida.
Aqui, resta ainda um aspecto que
evitei até agora. É a afirmativa soviética de que o xadrez foi inventado no
Uzbequistão. Todo mundo zomba disso, por causa da conhecida tendência
soviética a dizer que tudo foi inventado na Rússia. Mas a verdadeira tendência
deles é dizer que tudo foi inventado pelos russos, uma raça nórdica que
originalmente veio da Escandinávia. Os nativos do Uzbequistão, por outro lado,
não são uma das raças fovoritas dos soviéticos. Os uzbequistaneses são turcos,
que são os arqui-inimigos dos russos. Na verdade, os uzbequistaneses são um
tipo mongol que chegou ao que hoje é chamado Uzbequistão apenas em período
histórico recente, e que aprenderam a falar turco com outras raças. Quem quer
que tenha estado lá antes foi exterminado pelas hordas de Genghis Khan (que
dizem ser ancestral de minha filha, Shamema, mas isso é uma outra história).
De qualquer forma, o Uzbequistão, que se localiza numa área muito maior antes
conhecida como Turquestão, é apenas um trajeto de caravanas tanto chinesas
quanto indianas, e não pode ser totalmente descartado como uma possível fonte
de ambos os jogos.
Por outro lado, o Uzbequistão é
basicamente uma área deserta, como o Afeganistão, e seus habitantes sempre
foram principalmente nômades. É difícil acreditar que eles inventaram um jogo
como o xadrez. É mais provável que eles o tenham trazido de caravana de algum
outro lugar. A alegação atual de que o Uzbequistão criou o xadrez é baseada
principalmente no que parecem ser talvez peças de um antigo jogo de xadrez
mostrando, entre outra coisas, a figura de um elefante, que foi desenterrado
em 1972. Foi datado do século 2 d.c. (que, previsivelmente, causou alvoroço
entre aqueles que têm certeza de que o xadrez ainda não havia sido
inventado).(Dickens, A.S.M., Revista Britânica de Xadrez, Julho, 1973) Porém,
muito antes disso, de fato antes do estabelecimento do moderno império
soviético, o Uzbequistão havia sido aventado como um possível local de origem
do xadrez. (Veja Savenkov, I.T., A Evolução do Jogo de Xadrez, Moscou, 1905,
(em russo) citado por Murray) Realmente, sempre que a existência do xadrez no
Uzbequistão é mencionada, na maioria das vezes é dito que isso evidencia uma
origem do xadrez nas proximidades da China. Ninguém parece acreditar que os
tão difamados uzbequistaneses sejam capazes de inventar tal jogo.
O Uzbequistão ainda é uma origem
muito mais provável para o xadrez do que a Índia. Isso torna-se evidente
quando adotamos a abordagem linguística examinando os nomes das peças. As
peças maiores são a biga, o cavalo e o elefante. Cavalos, como foi dito antes,
não existem naturalmente na Índia. Cavalos domados podem ser vistos, mas não
cavalos selvagens. Acredita-se que os arianos da Ásia central usaram cavalos e
bigas há 4000 anos para conquistar a Índia. Em tempos mais modernos, os
ingleses facilmente conquistaram a Índia e o que é hoje o Paquistão
atacando-os com cavalos. Os exércitos indianos fugiram assustados, porque eles
nunca haviam visto cavalos. Nunca estive no Uzbequistão (exceto no lado
afegão), mas recentemente passei um mês próximo a Kashgar, no lado chinês da
fronteira, e não vi nada além de milhares, talvez milhões, de cavalos, muitos
dos quais selvagens. Quer dizer, existem cavalos em grande número ao norte,
mas não ao sul, das montanhas Kush Hindu e do Himalaia. Também os há ao longo
de todo o norte da China. Duas das peças tanto no xadrez chinês quanto no
persa e também supostamente no antigo xadrez indiano envolvem cavalos,
chamados cavalo e biga. Um jogo de origem indiana ou paquistanesa envolveria
mais provavelmente um camelo. Ao mesmo tempo, existiram elefantes na Índia e
provavelmente na China, mas não na Pérsia, no Paquistão ou no Uzbequistão,
apesar de que os persas tinham ouvido a respeito de elefantes. Por esse
processo, parece que eliminamos a Pérsia, a Índia, o Paquistão e o Uzbequistão
como possíveis locais para o origem do xadrez, sobrando apenas a China.
Realmente, muitos entre os
próprios chineses acreditam que seu nome, "jogo do elefante", para o xadrez
chinês, aponta claramente para uma origem indiana. Contudo, outros chineses
dizem que (1) existiam elefantes na antiga China, mas se extinguiram devido a
mudanças climáticas e (2) apesar de o caractere "shiang" em "shiang-chi"
significar ou ter significado elefante, também teve outros significados
anteriormente, e quando o significado do caractere mudou, mudou também o nome
do jogo. Por examplo, quando "shiang" é combianda com outro caractere chinês,
significa uma constelação no céu, e por esse motivo às vezes se diz que
"shiang-chi" é um jogo astrológico. Também, o elefante é uma das peças mais
fracas em quase todas as versões do xadrez. Sendo o elefante de verdade um
animal forte, isso dá sustentação à alegação chinesa de que esse caractere
significou alguma outra coisa em tempos antigos.
Finalmente, há um ponto, talvez
o mais importante, que encerra meu caso. É que o xadrez chinês é o jogo mais
popular do mundo, com centenas de milhões de jogadores em atividade. É muito
mais popular que o xadrez ocidental numa comparação homem-a-homem. Aonde quer
que se vá na República Popular da China, constantemente se encontra partidas
de xadrez chinês sendo jogadas. Vêem-se jogos no trem, no ônibus, em hotéis,
escritórios e outros pontos de encontro comuns, e até nas calçadas das ruas. É
nitidamente mais difundido que o xadrez ocidental em termos de população. O
jogo está também enraizado na cultura chinesa. Virtualmente toda pessoa do
sexo masculino, no mundo, de origem chinesa conhece as regras do xadrez chinês
e já jogou ao menos uma ou duas partidas, tendo aprendido durante a infância.
Se alguém quer jogar uma partida de xadrez chinês na China, tudo o que tem que
fazer é colocar um tabuleiro e as peças na calçada da rua e um adversário vai
se materializar instantaneamente. Passados mais um ou dois minutos, uma
multidão estará reunida para assistir ao jogo (e para fazer comentários e
sugestões não solicitados sobre as jogadas). Além disso, há diversas
variedades de xadrez chinês, algumas das quais desapareceram, mas outras ainda
sendo jogadas.
A imensa popularidade do xadrez
chinês é um ponto omitido por quase todas as fontes ocidentais. Golombek diz,
por exemplo, que quando o xadrez entrou na China, foi eclipsado pelo bem mais
popular jogo de go. (Golombek, Xadrez, uma História, Id., p. 22.) Na verdade,
o oposto ocorreu. O xadrez chinês é o mais recente entre os dois jogos.
Atualmente, na China, a quantidade de jogadores de xadrez chinês é muito maior
que a de jogadores de go. Go é o jogo da elite intelectual. Xadrez é o jogo
das massas.
Além do mais, voltando à lenda
de Shashi sobre a invenção do xadrez, na qual o inventor queria um grão de
trigo na primeira casa do tabuleiro, dois na segunda e assim por diante,
sabemos ao menos que quem que inventou a lenda era tanto jogador de xadrez
como matemático, que percebeu que 2 elevado à 64a. potência era um número bem
grande. Sabemos também, por nossa própria experiência, que esse é o caso
geral. Muitos jogadores de xadrez são matemáticos e a maioria dos matemáticos
joga xadrez. A relação entre o xadrez e a matemática é bem conhecida. Agora
mesmo, todo departamento de matemática em qualquer universidade dos Estados
Unidos está buscando receber seu justo quinhão dos matemáticos que estão sendo
mandados para fora pela República Popular da China em grande número. O
envolvimento chinês com a matemática é parte de sua cultura e sua história, e
não um desenvolvimento recente. É difícil para um ocidental entender o
significado disso, porque, no mundo ocidental, as pessoas estão acostumadas a
fazer as coisas por preferência pessoal, e não devido a sua origem cultural ou
religiosa. É incomum para o ocidental compreender ou acreditar que, com a
extensão com que se jogava o xadrez na Índia, ele era jogado pelos muçulmanos
mas não pelos hindus. Entretanto, por toda a Ásia, a religião de um homem é um
fator muito maior que sua preferência pessoal na determinação do que ele come,
como se veste, qual o seu trabalho ou o que ele faz em seu tempo livre.
De tudo isso, parece não haver
outra escolha senão concluir que o xadrez se originou na China. Partindo desse
ponto, podemos perceber como o xadrez se desenvolveu e se difundiu ao longo
dos séculos. A China sempre tendeu a ser um país isolacionista, durante sua
história registrada. Construiu a Grande Muralha em época antiga e ainda hoje
reluta em permitir o acesso de turistas. Marco Polo é famoso, não tanto porque
foi à China, já que a viagem física não era tão difícil, mas porque sobreviveu
para retornar e contar sobre isso. Somente durante o curto reinado mongol de
Kublai Khan foi permitido a alguns estrangeiros entrar e sair da China. Antes
e depois disso, a porta esteve fechada. Em vista dessa conhecida história, é
improvável que um jogo de origem estrangeira possa ter entrado na China vindo
da Índia e se tornado tão imensamente popular tão rápido. Em vez disso, é mais
lógico que ele tenha sido inventado na China em época não posterior ao século
2 a.c., e tenham se passado 800 anos até que penetrasse em outros territórios.
Chegou à Pérsia em torno do ano 650 d.c. Sua chegada lá se deu num momento
oportuno, pois o islamismo estava em seu início e começava a se expandir.
Os árabes levaram o xadrez junto
com o Corão por todo o norte da África até a Espanha e a França, em menos de
cem anos. É por esse motivo que o xadrez parece ter aparecido em toda parte
quase simultaneamente. (Murray, por outro lado, achava que o jogo se espalhou
rapidamente a partir de uma única origem devido a seu grande mérito
intrínseco). Ao mesmo tempo, indo na direção oposta, os árabes penetraram na
China, resultando que o islamismo é ainda hoje a segunda religião mais
difundida lá. Talvez tenha sido assim também que os árabes conheceram o
xadrez, e não com os persas ou indianos.
Há uma tradição muçulmana que
diz que, passados poucos anos da morte de Maomé, em 642 d.c., os califas Omar
e/ou Ali já conheciam o jogo e talvez eles mesmos o jogassem. (Mais
recentemente, os muçulmanos, todavia, passaram a afirmar que o jogo de xadrez
é pecaminoso e tal fato jamais poderia ter ocorrido). Em todo caso, é fato
historicamente provado que no período Ommayad da soberania síria, no século
oito, que começou com a morte de Ali, o xadrez era popular em todo o mundo
muçulmano. Desnecessário dizer, a aprovação do califa (ou de Ali, o primeiro
imã, dependendo de a qual ramo do islamismo se pertença) foi suficiente para
garantir que todos os muçulmanos iriam se dedicar ao jogo.
O xadrez também partiu da China
na direção oposta. A visão tradicional é que ele atingiu o Japão no perído
Nara, que durou de 704 a 790 d.c. Se isso é verdade, seria também forte
evidência contra a origem indiana do xadrez, porque é improvável que pudesse
ser inventado na Índia no século 6, cruzado desde Kashmir até a China (a rota
suposta), e então atravessado toda a China e o Mar do Japão, para chegar ao
Japão em apenas cerca de cem anos. Realmente, são tantas as diferenças entre o
xadrez chinês e o japonês que os especialistas no Japão não acreditam que ele
tenha vindo diretamente da China, ou mesmo da Coréia (o xadrez coreano é
relativamente semelhante ao xadrez chinês). Ao contrário, eles supõem que o
processo evolucionário demorou muito mais, certamente centenas ou talvez até
mil anos. Não foi senão em torno do século 5 d.c. que o próprio go chegou ao
Japão vindo da China, apesar do go ter se desenvolvido na China por mais de
dois mil anos até então, e o Confúcio o mencionar no século 5 a.c.
O xadrez japonês evoluiu na
direção oposta à do xadrez ocidental. No xadrez ocidental, as peças foram
ficando cada vez mais fortes. No xadrez japonês, elas ficaram gradualmente
mais fracas porém mais agressivas, já que geralmente perderam sua capacidade
defensiva. A peça do canto tornou-se a lança japonesa, que, como a torre, pode
se mover para a frente, mas, ao contrário da torre, não pode ir para os lados
ou para trás. (Um dos caracteres para a lança japonesa ainda é o mesmo que o
caractere chinês para a biga). O cavalo do xadrez chinês tornou-se a "kiema"
no xadrez japonês, que se move como um cavalo, mas somente para a frente, não
para os lados ou para trás. Talvez o nome "kiema" seja derivado de "ma", que é
a palavra falada para cavalo em chinês. (O "cavalo" em si, no xadrez japonês,
é uma peça totalmente diferente, o bispo promovido, e foi acrescentado muito
depois). O elefante no xadrez chinês tornou-se o "prata" no xadrez japonês,
que se desloca uma, e não duas, casas diagonalmente e também pode se mover uma
casa para a frente. O chanceler tornou-se o "ouro" japonês, uma peça um tanto
diferente mas também fraca. O rei continuou um rei e os peões continuaram
peões. Os peões japoneses andam e capturam do mesmo modo que os peões
chineses, uma casa para a frente, e não capturam diagonalmente como no xadrez
ocidental.
Já que essas diferenças, que são
bem maiores que as diferenças entre o xadrez ocidental e o chinês, não podem
ser explicadas apenas pela entrada no Japão, os japoneses acreditam que o jogo
seguiu uma improvável rota através da península malaia e de lá entrou no
Japão. Apóia essa tese o fato de que o xadrez burmês e o tailandês têm uma
peça que se move exatamente como um prata no xadrez japonês. Finalmente,
acreditam os japoneses que o período entre os séculos 13 e 15 trouxe a
reintrodução da torre e a introdução do bispo. Isso explica a estranha posição
da torre e do bispo no shogi, comparando com outros jogos similares ao xadrez.
Kimura, Yoshinori, "Uma Introdução ao Shogi – Passado e Presente", Revista
Trimestral de Shogi Ocidental, Federação Norte-Americana de Shogi, No. 3, p.
3, Outono, 1985.
Acredita-se que a maior parte
dessa evolução ocorreu dentro do próprio Japão. Os japoneses experimentaram
largamente, e sugeriram mais de trinta tipos diferentes de peças num jogo
chamado "grande shogi" e 21 peças no "médio shogi", comparadas às apenas oito
do shogi moderno, sete do xadrez chinês, sete do xadrez coreano e seis do
xadrez ocidental. Havia também o "grande shogi" e muitos outros tipos de
shogi, vários dos quais gozaram de considerável popularidade em alguma época.
O resultado final foi o jogo atual, tradicionalmente chamado "pequeno shogi",
que contém muitas características que nenhuma outra forma popular de xadrez
tem, inclusive o fato de as peças capturadas tornarem-se parte do exército
inimigo, podendo reentrar no jogo, e de seis dos oito tipos de peças terem a
possibilidade de ser promovidas a outra peça, uma vez que adentram o
território inimigo. As peças japonesas também perderam sua cor e tornaram-se
pentagonais em vez de circulares. Essas enormes mudanças não podem ser
explicadas por qualquer processo evolutivo, que normalmente é lento. A única
explicação possível é o fascínio japonês pela exerimentação e pelo
aperfeiçoamento de qualquer idéia que se introduza em seu país.
O xadrez chinês também chegou à
Coréia, mas relativamente poucas mudanças foram feitas. Os nomes e caracteres
chineses para as peças antigas permaneceram os mesmos: biga, cavalo e
elefante. O movimento do elefante mudou radicalmente, contudo. Agora move-se
como um cavalo gigante, três para cima e duas para o lado, que é mais adequado
para um elefante. As peças não são circulares, mas sim octogonais, e têm as
cores verde e vermelho em vez de vermelho e preto. A posição inicial do rei é
uma casa para a frente, e o cavalo e o elefante às vezes invertem suas
posições iniciais entre si.
O xadrez também se disseminou em
outras regiões sujeitas à influência chinesa. Indo para o sul, ele entrou em
Burma, no Laos, no Vietnã e no Camboja. Dali atingiu a Tailândia e a Malásia e
atravessou para a ilha de Java, na Indonésia, onde foram encontrados vestígios
do xadrez. (Chien Chun Ching, "Pesquisa em xadrez chinês das dinastias Tang e
Song", p. 86, Hong Kong, 1984 (em chinês). Apesar de o xadrez chinês ainda ser
jogado também no Vietnã, outras variantes do jogo dominaram a maioria dos
outros países. Algumas delas já desapareceram ou, como no caso do xadrez
malaio, sofreram mudanças radicais em época recente com o intuito de se
adequar melhor às regras do xadrez ocidental moderno. ("Regras do Xadrez
Malaio", Real Sociedade Asiática - Striates Branch Journal, Cingapura, No. 49,
p. 87-92 (1907), também No. 8, p. 261 (1917)). Porém, muitos, tal como o
xadrez coreano, ainda são jogados com zelo fanático no país onde se
estabeleceram.
Finalmente, e possivelmente o
último de todos, o xadrez chegou ao ocidente. Foi provavelmente levado de
caravana através do deserto de Gobi até o Uzbequistão, onde as mais antigas
peças conhecidas, inclusive um elefante "em pé" datado do século 2 d.c., foram
encontradas. De lá cruzou o Afeganistão, chegando à Pérsia por volta do século
7 d.c. Na época, a Pérsia tinha a cultura dominante na região. Até a língua
indiana, o hindi, é substancialmente derivado do Persa. A história daquela
região nos diz que naqueles dias a maior parte das coisas passava da Pérsia
para a Índia, e não o contrário. O xadrez também atravessou da Pérsia para a
Etiópia, onde uma forma pouco conhecida do jogo, na qual ambos os lados se
movem simultaneamente e o mais rápido possível, ainda é jogada. "Xadrez
Etíope", Jornal da Escola de Estudos Orientais e Africanos, Londres, 1912.
(Suspeita-se, contudo, que isso na verdade não é xadrez como nós o
entendemos.)
Há base sólida para afirmar que
o xadrez ocidental é realmente a versão mais recente do jogo. O primeiro
escritor sério de xadrez moderno que era capaz de produzir um bom jogo foi
aparentemente Lucena, em 1497. (De fato, seus estudos de finais, tais como
aquele famoso de torre e peão, se aplicavam igualmente bem ao xadrez
medieval). Ruy Lopez, que claramente escrevia sobre a versão moderna do jogo
em 1561, provavelmente não era melhor que um jogador de classe C pelos padrões
atuais. Até McDonnell, da fama de LaBourdonnais - McDonnell, talvez não
estivesse acima da classe A, e isso foi em 1834 e ele era o melhor jogador da
Inglaterra. É evidente que, antes de Morphy, em 1860, nenhum jogador na
história do xadrez havia jamais atingido o moderno padrão de grande
mestre.
Em contraste, no Japão do ano de
1604 havia jogadores que, se vivos hoje, poderiam disputar o campeonato contra
os maiores profissionais de shogi, sem necessidade de nenhum retoque nas
aberturas. Similarlmente, no go, os melhores jogadores da história viveram há
mais de cem anos, não hoje. Veja, por exemplo, "Invencível: Os Jogos de
Shusaku, o maior gênio japonês de go que já existiu", traduzido por John
Power, The Ishi Press, Chigasaki, Japão, 1983. Apenas por ser o xadrez
ocidental tão novo é que existe a necessidade da mais nova versão da
"Enciclopédia de Aberturas de Xadrez" para que nos mantenhamos em dia com os
últimos desenvolvimentos. Daqui a duzentos anos, o conhecimento das novidades
em teoria de aberturas pode não ser mais tão importante como é hoje.